Em 4 de junho de 1996, o primeiro Ariane 5 deixou a base de Kourou com quatro satélites Cluster. O voo terminou pouco depois. Havia um sistema de referência inercial reserva, mas ele não sustentou a operação quando o principal falhou: já havia parado pelo mesmo motivo. Fontes 1 e 3
A investigação mostra um limite importante da redundância. Duas unidades podem proteger contra a falha isolada de uma peça e, ao mesmo tempo, permanecer vulneráveis a uma condição compartilhada.
O software veio junto com suas hipóteses
O sistema reutilizava software desenvolvido para o Ariane 4. Uma rotina de alinhamento continuava executando depois do início do voo, embora já não fosse necessária nessa fase para o Ariane 5. Dentro dela, uma variável interna relacionada à velocidade horizontal era convertida de ponto flutuante de 64 bits para inteiro com sinal de 16 bits. Fonte 1
O intervalo representável no destino era menor. Nas condições de voo do novo foguete, o valor ultrapassou esse intervalo e provocou uma exceção não tratada naquele trecho.
Não houve troca física de um processador de 64 bits por outro de 16. O problema estava na representação de um número e nas hipóteses sobre quais valores o sistema encontraria. O histórico de funcionamento no Ariane 4 não validava automaticamente essas hipóteses para outra trajetória.
A reserva encontrou o mesmo limite
As duas unidades executavam o mesmo software e estavam sujeitas às mesmas condições. A reserva falhou primeiro; a ativa, quase imediatamente depois. Não eram dois defeitos independentes que coincidiram por azar. Fonte 1
Ao perder informações válidas, o computador de bordo recebeu dados de diagnóstico que foram interpretados como dados de voo. Os comandos resultantes produziram grandes desvios, e as cargas aerodinâmicas levaram à ruptura do veículo. Essa sequência é mais precisa do que dizer que “o computador mandou o foguete explodir”.
Os relógios do relatório também exigem cuidado. H0 marca o início da sequência de ignição do motor principal, não a saída do solo. A perda de informação é situada em torno de H0 mais 37 segundos, aproximadamente 30 segundos após a decolagem; a ruptura ocorre depois. Transformar tudo em “explodiu 37 segundos após decolar” mistura marcos distintos.
O cenário de teste precisava acompanhar o foguete
O sistema havia sido testado. A questão identificada pela comissão foi a representatividade dos testes e das condições usadas na qualificação. A integração não revelou a exposição do software às características do novo voo. Fontes 1 e 2
Reutilizar um componente também significa revisar os pressupostos que o tornavam seguro: entradas possíveis, limites numéricos, funções ainda necessárias e comportamento diante de exceções. O que parece um detalhe local pode invalidar a informação usada pelo conjunto inteiro.
Duplicar não elimina uma causa comum
A ESA documentou revisões e novas atividades de qualificação no plano de ação para o voo seguinte. O registro dessas medidas explica a resposta institucional, sem prometer que qualquer sistema futuro estaria livre de falhas. Fonte 4
A síntese editorial é que a reserva só oferece proteção contra aquilo de que consegue ser independente. Quando as duas unidades compartilham o mesmo limite, a quantidade de cópias não resolve essa vulnerabilidade. Em Marte, a missão Mars Climate Orbiter revelaria outra hipótese incompatível que atravessou a integração sem ser corrigida.
A SEQUÊNCIA DOS FATOS
A linha do tempo.
- 4 JUN 1996
O voo de estreia
O Ariane 5 decola de Kourou levando quatro satélites Cluster.
- DURANTE A ASCENSÃO
Perda de referência
O sistema reserva falha primeiro; o ativo falha logo depois pelo mesmo mecanismo.
- 19 JUL 1996
Relatório da comissão
A investigação pública descreve a conversão numérica e as lacunas de qualificação.
- FEV 1997
Plano de ação documentado
A ESA descreve revisões e atividades de qualificação para o voo seguinte.
Cronologia baseada nos documentos identificados nas fontes desta investigação.
TAMBÉM EM VÍDEO
A investigação completa.
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DOCUMENTOS, NÃO ACHISMOS
Fontes da investigação.
Os documentos que sustentam esta leitura. Relatórios das empresas envolvidas são identificados como tal.
- ESA/CNES · 19 jul. 1996Ariane 5 Flight 501 Failure — Report by the Inquiry Board (nova aba)
Relatório principal: seções 2 e 3 sobre mecanismo, testes e conclusões.
- ESA · 23 jul. 1996Apresentação das conclusões da comissão (nova aba)
Síntese institucional da investigação.
- ESA · 6 jun. 1996Flight 501 failure — first information (nova aba)
Data, local e carga útil. Detalhes técnicos posteriores seguem o relatório final.
- ESA Bulletin 89 · fev. 1997Plano de ação para o voo 502 (nova aba)
Relato institucional das mudanças e da qualificação.
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